Por que fazendeiros racistas da Namíbia são mais vulneráveis a ataques de predadores?

1-deserto-21Predadores como leões e leopardos estão ficando mais populosos na Namíbia por causa do sucesso de recentes medidas conservacionistas. Mas esses animais selvagens, infelizmente, estão causando problemas e mais problemas para pecuaristas do país africano: alguns felinos preferem jantar o gado, em vez de carne de animais selvagens.

Não por acaso, fazendeiros têm se irritado com essa prática, e uma reação natural deles é usar espingardas como solução.

Ambientalistas tentam há décadas reduzir esse conflito. Usaram cães de guarda para assustar os bichos, ergueram cercas e até distribuíram indenizações para fazendeiros afetados, além de promover o produto de fazendas que não matassem os felinos.

Mas fazendeiros seguem relatando casos e mais casos de ataques. Por quê?

Apartheid

Pesquisas já analisaram fatores ambientais afetando essa situação, como o número de animais selvagens para a caça, ou o tipo de habitat ao redor das fazendas. Mas esses estudos volta e meia ignoram uma parte crítica de problemas conservacionistas: humanos.

Passei quase um ano vivendo em uma fazenda na Namíbia para tentar entender como fatores políticos, econômicos, históricos e sociais influenciavam o conflito entre humanos e carnívoros. Visitei muitas fazendas e entrevistei seus administradores e empregados. Percebi uma tendência: fazendas que não relatavam problemas com felinos eram as que tinham trabalhadores mais motivados.

O passado histórico da Namíbia, em especial a era em que viveu sob um regime de segregação racial, ainda é uma sombra na vida do país e também no setor agrário da economia. Donos de fazendas comerciais são, invariavelmente, brancos. Os trabalhadores, em sua maioria, negros.

Começamos a perguntar aos fazendeiros e seus empregados mais informações sobre relacionamentos profissionais. Descobrimos que havia fazendas em que capatazes eram tanto racistas quanto violentos com seus funcionários, algo que desmotivava os empregados. Gerentes racistas também não viam benefícios de programas de treinamento para seus empregados, o que resultava em menor capacidade deles em proteger vacas e ovelhas.

Muitos funcionários tinham pouca escolaridade e alguns sequer sabiam contar direito. Um fazendeiro, por exemplo, pediu aos empregados que movessem um rebanho de 250 cabeças de gado de um pasto para o outro, mas eles não sabiam contar até 100. Isso dava margem para que cabeças de gado fossem deixadas para trás e ficassem expostas aos predadores.

Para piorar, fazendas em que trabalhadores eram maltratados eram palco de retaliações ocasionais: empregados roubavam animais para comer ou vender, em especial animais criados para a caça, o que deixava rebanhos de vacas e ovelhas em perigo.

Outro problema é que empregados também roubavam vacas e ovelhas e, para disfarçar, informavam aos patrões que predadores tinham atacado.

Mas como resolver essa situação?

Conservacionistas não são treinados para lidar com racismo, recursos humanos ou desigualdade social. Mas nossa pesquisa mostrou o quão profundo o conflito entre carnívoros e fazendeiros é: não podemos confiar apenas em critérios técnicos para resolver a questão.

Nosso trabalho faz parte de um corpo de estudos mostrando como problemas na coexistência entre pessoas e animais podem ser causados por conflitos com humanos.

Para entender como viver pacificamente com leões e leopardos, precisamos compreender fatores sócio-culturais que podem influenciar essas situações. Por isso é que conservacionistas precisam trabalhar mais com cientistas sociais, historiadores e psicólogos.